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Papo firme com Júnior


Postado no Futebol & Arte
Escrito por André Rocha

Leovegildo Lins da Gama Júnior, 55 anos recém completados no último dia 29, é um dos maiores craques da história do futebol brasileiro. Nos campos, desfilou sua classe e liderança de 1974 a 1983 no Flamengo, Torino, Pescara e seleção brasileira. No futebol de areia foi o craque que popularizou o esporte. Também foi observador da seleção brasileira em 1994, teve uma passagem relâmpago como técnico do Corinthians em 2003 e foi dirigente do Flamengo em 2004.

Hoje é comentarista de futebol e, depois de experiências na TV Bandeirantes, Record, e SporTV, no qual trabalhou nas Copas do Mundo de 1998 e 2002, está na TV Globo. Na internet, Júnior tem seu próprio site e o blog “Visão de Jogo”.

Em um autêntico e literal papo de boteco em Copacabana com este que escreve e Wilson Hebert, Júnior respondeu perguntas para um livro de Mauro Beting que será lançado ainda este ano (novidades em breve!) e gentilmente atendeu o Futebol & Arte. Confira os melhores momentos da entrevista

O blogueiro

Eu não sou aquele blogueiro assíduo, porque você dá espaço, mas não tem como discutir o futebol. Sempre aparece o fanático que vai protestar se você escrever algo sobre o seu time de coração com que ele não concorde. A minha resposta para eles são os meus comentários na TV, que não têm um peso diferente seja lá para quem for. Algumas pessoas que comentam até te incentivam a continuar escrevendo, mas é difícil lidar com quem coloca a paixão muito acima da razão. Eu gosto de aprender, mas essas pessoas acrescentam muito pouco.

Mas também tem o outro lado. Quando o jornalista diz que o jogador é um perna-de-pau ele está cometendo um erro grave. Porque quem vira jogador profissional no Brasil tem que ser respeitado, pois todos querem ser e poucos conseguem. Você dizer que o cara não é tão qualificado é uma coisa. Falar que é perna-de-pau é humilhação. E se for um jogador folclórico, o comentarista compra uma briga complicada, porque são figuras queridas e carismáticas. Vai humilhar o Biro-Biro perto de um corintiano! Essas figuras emblemáticas dos clubes você não pode mexer muito. Como diz o Armando Nogueira: “Você pode criticar sem ofender e elogiar sem bajular.” Eu sempre levo esse ensinamento do mestre comigo. O André Rizek criou para ele um monstro, porque aonde ele for será lembrado como o cara que humilhou o Obina (entenda o caso aqui).

O comentarista

A visibilidade aumenta muito na TV aberta. No meio do futebol nem tanto, porque as pessoas assistem à TV fechada. Por exemplo, eu fui a Porto Alegre para a final da Copa do Brasil e o rapaz do credenciamento me entregou o adesivo da SporTV. Foram cinco anos por lá, né? Eu fiz as copas de 1998 e 2002 por lá.

Na TV aberta você fala para um público muito mais abrangente. Às vezes uma senhora me para na rua e diz que eu falei algo no jogo que ela conseguiu entender melhor o esporte. E isso é muito legal, é algo novo. Porque no SporTV eu não precisava me preocupar tanto com isso. Ali o trabalho era falar de tática, de detalhes do jogo para quem gosta do esporte. Agora a velhinha está fazendo tricô, vendo o jogo e me ouvindo.

A Globo tem uma dimensão diferente. Eu passei por Bandeirantes, SBT e Record. E nada se compara com a Globo em termos de repercussão. Na final da Copa do Brasil em Porto Alegre, o Ibope apontou 45 para a Globo, 13 para a Record e 9 para a Bandeirantes. Para o comentarista isto não faz muita diferença, mas para o narrador é como se fosse uma injeção de ânimo. Ou para você se estimular com a alta audiência ou para tentar puxar para cima se ela estiver baixa.

Carreira de treinador

Na verdade, eu nunca tive essa pretensão. Eu virei treinador do Flamengo em 1993 por uma espécie de “convocação”.

Às vezes dá vontade de voltar para a beira do campo, até porque eu vejo os caras fazerem cada besteira! (risos) Cada função tem seus pros e contras. Quando você é jogador, pode decidir dentro de um conjunto. Como treinador, o seu trabalho fica mais limitado. A verdade é que valorizaram demais o técnico. O trabalho é durante a semana, é o estudo.

Passagem relâmpago pelo Corinthians em 2003

Eu não gosto de bagunça. Fui pelo projeto, não pelo salário. Se tivesse ido pela grana não teria saído. Teria ficado lá “roubando”, como disse para eles na época. Quinze dias foram suficientes para eu ver que não tinha projeto nenhum (oficialmente foram 11 dias de trabalho, o mais breve de um treinador na história do Corinthians). Era uma bagunça completa. O meu diretor técnico (Roberto Rivellino) não ia ao jogo. Se fosse o diretor financeiro, administrativo, supervisor ou coisa parecida, ainda vá lá, mas o técnico! Ele tem que estar ali!

Na verdade eles estavam procurando um nome de respeito, de credibilidade para ficar com a cabeça na guilhotina a cada jogo. Quando tentavam me impor alguma coisa, como escalação de jogador, eu mandava ir conversar com o Dualib, porque comigo eles não iam se criar. Eu pedi os reforços e a diretoria disse que não dava. Como eu ia levar aquele time com garotada subindo e os mais velhos com preparo físico pior do que o meu? O problema ali foi que eu não tive respaldo, alguém para brigar junto comigo.

Quando saí me chamaram de maluco. Mas eu não podia dar o que o Corinthians queria de mim. Sete meses depois disseram que eu tinha bola de cristal, porque o time, com as contratações “maravilhosas” que eles fizeram, quase foi rebaixado no Paulistão.

O dirigente

Em 2004 eu também fui pelo projeto do Fla Futebol, mas o Márcio Braga (que encontramos no mesmo bar um pouco antes) afinou. Dirigir por dirigir não me interessa. Eu queria organizar as coisas, ser o diretor técnico, trazer o meu treinador. O Abel me é grato até hoje, porque a carreira dele estava na descendente. Eu dizia que eu é que devia me expor e não ele.

Faltou a Copa do Brasil. Se vencesse ali, o projeto decolaria e o Flamengo hoje poderia estar em uma situação bem diferente. O Fla Futebol foi o primeiro trabalho em todos esses anos que deu lucro, foi superavitário. Mas aquela derrota abriu espaço para que começassem a interferir no trabalho dos profissionais.

Eu sou a favor da profissionalização dos dirigentes de futebol porque se o cara não corresponder, ele é demitido, como em qualquer empresa. O amador faz o que quer, normalmente não tem a qualificação para estar ali e, quando sai, não muda nada para ele. Já para o clube...

Mano Menezes

É disparado o melhor treinador no Brasil e o melhor técnico brasileiro. Hoje ele está acima do Luxemburgo e do Muricy Ramalho. O Scolari é ótimo, mas quem está na crista da onda é o Mano. Uma coisa é você pegar o Palmeiras da Parmalat nos anos 1990 com Roberto Carlos, Rivaldo, Edmundo, Evair e Djalminha. Outra muito diferente é trabalhar com Alessandro, Chicão, William, Elias, Jorge Henrique e Dentinho. E o cara fez o time jogar. E com ele não tem saia justa, responde a todas as perguntas com segurança. É um cara que tem liderança, não fica mudando o time toda hora e faz observações durante o jogo.

Corinthians 2009 / Flamengo 1992

O Corinthians de hoje é o Flamengo de 1992. Disse isso antes dos títulos e repito agora. É um esquema muito semelhante. A diferença é que aquele Flamengo tinha bons jogadores no elenco para fazer aquela função pelos lados. Paulo Nunes, Nélio, Marcelinho Carioca e Júlio César podiam jogar nas duas pontas. O Djalminha também, mas ele era mais um meia, ficava na reserva do Zinho. E esses caras eram rápidos e sabiam marcar.

Enfrentar um time com três na frente é complicado porque você precisa plantar quatro jogadores atrás e acaba abrindo o meio-campo. E aí eu ganhava espaço. Quando o Flamengo enfrentava equipes com quatro jogadores no meio eu recuava para buscar a bola e liberava o Uidemar. O nosso Douglas era o Zinho, e não eu, que não tinha mais condições físicas de ficar de costas para a bola com um cara no meu ‘cangote’. Então recuava para armar de trás e o Zinho ficava mais à frente, perto dos atacantes.

Na primeira final do Brasileiro contra o Botafogo, o volante Pingo foi orientado para me marcar individualmente. Eu troquei com o Uidemar e aparecia na frente de surpresa para finalizar, como no lance do primeiro gol na vitória por 3 a 0 que praticamente nos deu o título.

O Fla multicampeão

O Flamengo de 1981 jogava em um 4-4-1-1 e o Tita e o Lico faziam função muito semelhante a dos pontas de 1992. O Zico era praticamente um atacante e o Adílio era o nosso condutor de bola. Se o jogo estivesse difícil, era bola no “neguinho”! (risos) E quando o Vítor entrava no meio-campo, o Adílio ia para o lado esquerdo e ninguém tirava a bola dele. E as pessoas achavam que jogávamos no 4-3-3, como as outras equipes.

O Zico foi o cara que, para mim, chegou mais perto do Pelé. Porque era um jogador completo: batia de direita, de canhota, cabeceava, lançava, passava e liderava. Em termos de malabarismo e improviso o Maradona pode até ter sido superior. Maradona era um carregador de bola, Zico era mais finalizador, decisivo. Ganhou todos os títulos possíveis em clubes e consagrou todos os centroavantes com que jogou no Flamengo.

Jejum de Brasileiros do Flamengo

Em primeiro lugar, aquele time dos anos 1980 não pode servir de parâmetro. Foi uma equipe de exceção, que de 1978 a 1983 ganhou quatro estaduais, três brasileiros, uma Libertadores e um Mundial Interclubes. Nove títulos em seis anos é algo muito raro.

E hoje basicamente o que falta é estrutura, principalmente um centro de treinamentos. Porque o jogador tem onde descansar depois do almoço, o treinamento em dois períodos rende mais. Com um CT, você pode fazer um treino realmente secreto, sem chances da imprensa conseguir filmar. Quem tem estrutura leva vantagem, sem dúvida alguma. E falta isso ao Flamengo, muito pela falta de seriedade dos dirigentes.

Holanda 1974

Foi o maior espetáculo tático e técnico de futebol que eu vi na vida. Muitos times pegaram conceitos daquela seleção, mas nenhuma equipe conseguiu repetir aquela dinâmica. E eles não venceram a Copa...

Dunga x geração de 1982

Eu acho que o Dunga ainda não tem os problemas da Copa de 1990 resolvidos na cabeça dele. Antes de vencer em 1994 ele sofreu quatro anos antes. E dizer que nós não éramos jogadores competitivos é desprezar tudo que ganhamos. Se pegarmos os títulos que eu, Leandro e Zico conquistamos no Flamengo já dá para ver que nós fomos competitivos e vencedores. E a maioria daquela seleção foi jogar na Europa e seguiu a sua carreira, ganhando títulos.

O time de 1982 encantou e ficou na memória dos brasileiros pelo estilo de jogo e pela alegria. É mais fácil gostar e achar bonito um meio-campo com Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico do que com Mauro Silva e Dunga. Era bem diferente.

4 comentários:

Raffael Araripe disse...

rpz, junior mesmo todo mundo sabendo que é flamenguista consegue ser mais imparcial nos comentários que os outros..

Vv disse...

Temos que RESPEITAR o CAPACETE ! Bacanérrimo, einh ! Abraços, Vivi.

Jefferson freire disse...

Parabéns e que honra entrevistar o capacete. Muito boa a entrevista.

Abços

oPerna disse...

dalhe eterno capacete,
muito boa a entrevista.

abraço